NARRATIVAS TERAPÊUTICAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, que não separa o observador do observado.

A PRODUÇÃO DE MÚLTIPLAS AUTENTICIDADES

A PRODUÇÃO DE MÚLTIPLAS AUTENTICIDADES

A PRODUÇÃO DE VIDAS INABITADAS

AÇÃO PESSOAL e ESTADOS INTENCIONAIS

6.CONSIDERAÇÕES SOBRE AGENCIAMENTO PESSOAL* e ESTADOS INTENCIONAIS

 MICHAEL WHITE – Narative Practice and Exotic Lives: Resurrecting diversity in everyday life; Dulwich Centre Publications; Adelaide,South Australia; 2004

RESPOSTA: PSICOLOGIA POPULAR

Discuto a extensão em que muitas das práticas narrativas de perguntas podem ser localizadas dentro do contexto da volta interpretativa e dentro da tradição da psicologia popular. (p.60)

Acredito que a familiaridade que as pessoas têm com um tipo de perguntas terapêuticas tem a ver com o fato que as práticas da terapia narrativa estão intimamente vinculadas com uma tradição particular de compreensão e identidade que é profundamente histórica. Às vezes estas antigas tradições seculares são referidas como “psicologia popular” (Bruner,1990; White, p. 67) Todas as culturas têm como um de seus mais poderosos instrumentos constitutivos uma psicologia popular; um conjunto mais ou menos conectado; descrições mais ou menos normativas de como os seres humanos “abalizam”, o que em nós mesmos e outras mentes somos semelhantes; o que se pode esperar de uma ação situada ser análoga; quais são os possíveis meios de vida; como se comprometer com alguém e assim por diante... Cunhada com menosprezo pelos novos cientistas cognitivos por seu acolhimento em direção aos tais estados intencionais como crenças, desejos, e significados, a expressão de “psicologia popular” não poderia ser mais apropriada. (p.67)

De acordo com esta definição, nós rotineiramente empregamos psicologia popular como fazemos nosso caminho na vida cotidiana. Nós colocamos essa psicologia popular a serviço de nossos esforços para entender nossas próprias vidas e em dar sentido as ações dos outros. A psicologia popular nos equipa com uma gama de noções sobre o que faz as pessoas a "abalizaram", e fornece uma base para nossas respostas às ações dos outros -- nossas respostas à ação dos outros são baseadas na compreensão desses entendimentos o que os faz “balizarem” nossas conclusões sobre a natureza dessas ações. (p.67)

Em muitos lugares neste artigo faço referencias a importância que é atribuída as noções de ação pessoal e estados intencionais no contexto de explorações narrativas da ação humana e formação de identidade. Neste momento eu vou fazer uma série de esclarecimentos sobre o que estou propondo. Acredito que isso é apropriado porque essa ênfase na importância dessas noções de ação pessoal e estados intencionais são muitas vezes interpretadas como uma proposta para tradições de compreensão que não se encaixam em tudo com a psicologia popular que venho descrevendo. Ao atender a esses esclarecimentos chamarei a atenção para a parte que as práticas terapêuticas moldadas por essa tradição da psicologia popular podem desempenhar na produção de vidas "multi-intencionadas ", de vidas “unidas”, de “múltiplas autenticidades” e de vidas “habitadas”. (p.85)(colocarei o assuntodos dois últimos tópicos na próxima semana “múltiplas autenticidades” e  vidas “habitadas”.

 

1. A PRODUÇÃO DE VIDAS MULTI-INTENCIONADAS (p.85)

Às vezes a ênfase dada para noções de ação pessoal e estados intencionais nas práticas narrativas são lidas como uma proposta para:

1. Entendimentos estritamente racionais da vida 2. A privilegiação das ideias contemporâneas sobre o pensamento e ações individuais e autônomas 3. Uma renovação das psicologias de estado interno em que esses estados intencionais são relançados como como um fenômeno que são intrínsecos a vidas das pessoas, ou 4. A renovação de causas altamente determinísticas de relatos de cusa/efeito das ações humanas.

Entretanto, isto não é o que está sendo proposto. Em vez disso, este “fazer” em ação pessoal e estados intencionais é para propor que, em resposta a expressões pessoais de vida, há uma gama de oportunidades para as pessoas se envolverem entre si na negociação e renegociação do tipo de conclusões de identidade que são informadas por uma tradição da psicologia popular. (p.85)

É nesta tradição que as noções de ação pessoal e estados intencionais são atribuídos e implicados nos atos de viver das pessoas. Estas noções de ação pessoal e estado intencional estão presentes nestas conclusões sobre as ações das pessoas que são moldadas por categorias de identidade que apresentam propósitos, valores, crenças, esperanças, sonhos, visões e compromissos de vidas. Essas categorias de identidade podem ser vinculadas para "arquivar gabinetes" da mente, em que as pessoas rotineiramente arquivam e cruzam uma série de conclusões de identidade sobre suas próprias vidas e a dos outros. (p.86)

Estas conclusões de identidade não são fabricadas de forma independente e autônoma, mas são socialmente negociadas e renegociadas nas comunidades das pessoas. E elas não são singulares. Essas conclusões de identidade existem dentro de um contexto de multiplicidade - como resultado da negociação social contínua dessas conclusões de identidade, e a vida das pessoas se torna multi-intencional. Esta ênfase na importância da negociação social das conclusões da identidade das pessoas não é uma reprodução dos estados internos. Essas conclusões de identidade não são consideradas um reflexo dos fenômenos intrínsecos da vida das pessoas que se manifestam em suas ações. Em vez disso, o que está sendo proposto é que são essas próprias conclusões que são consequências para a vida e relacionamentos das pessoas. Estas concludões de identidade significantemente constituem a existencia das pessoas.(p.86)

2. A PRODUÇÃO DE VIDAS “UNIDAS”, (p.86)

Conversações de externalização são muitas vezes, mas nem sempre, destaque nas práticas da terapia narrativas. Na resposta aos problemas de suas vidas, não é incomum para as pessoas formarem conclusões de identidade altamente negativas sobre si próprias, um ao outro e sobre a identidade de seus relacionamentos. É nestas circunstâncias que as conversas de externalizações abrem opções para as pessoas redefinirem ou revisarem suas relações  com os problemas de suas vidas, e assim não violar suas vidas a partir dessas conclusões de identidade altamente negativas. Nesta redefinição da relação com os problemas, as conclusões negativas de identidade que invariavelmente invocam o estado interno de algum tipo - usualmente associados a algum relato de déficit, patologia ou disfunção - não falam mais para as pessoas da totalidade de quem eles são. É no contexto destas conversas que as pessoas derivam um senso de que sua identidade não tem nada a ver com os problemas de suas vidas. Entre outras coisas, isto abre espaço para outras conversas que contribuem para a geração de histórias alternativas na vida das pessoas, e para a renegociação de conclusões de identidade. Invariavelmente as pessoas respondem para estas conversações se engajando na atuação de algumas das reivindicações preferidas acerca de suas vidas que estão associadas a essas conclusões alternativas de identidade. Em resumo, conversas terapêuticas que fornecem opções para traficar noções de estados intencionais levantam novas possibilidades para a junção de identidades, proporcionam antídotos ao julgamento normalista que está tão intimamente associado ao desenvolvimento do eu autônomo, e contribuem para a descelularção da vida.

*Nota: daqui para a frente vou traduzir personal agency como ação pessoal porque no Dicionário do Aurélio está colocado agenciar como diligência, atividade e, agir como praticar ou efetuar algo na condição de agente, atuar, proceder, portanto o personal agency será traduzido como ação pessoal