NARRATIVAS TERAPÊUTICAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, que não separa o observador do observado.

EXPOSIÇÃO DAS IDEIAS DA TERAPIA NARRATIVA COM CRIANÇAS

MICHAEL WHITE & ALICE MORGAN- Narrative Therapy with Children and their families; Dulwich Centre Publications; Adelaide; South Australia; 2006; Chapter One, (p.2)

CONVERSA COM RICHARD (p.3)

Richard é um menino de 7 anos de idade que foi trazido para me ver por seu único parente, a mãe, Jane. Richard não estava indo bem na vida. Ele geralmente era medroso, bastante frágil, considerado ter “fobia da escola”, e estava sofrendo de uma condição que acreditavam ser ‘psicossomática’. Assim com isso, ele estava vivenciando constante insônia. O pai de Richard tinha abandonado a família quando ele era uma criança pequena, e a partir desse tempo não teve contato com Richard. Em resposta às minhas perguntas sobre as experiências de vida de Richard, soube que ele tinha tido algumas experiências de trauma que não eram recentes, e consultei os pensamentos de Jane sobre adicionar isso no contexto de nossas conversas. Jane disse que pensava que poderia ser uma boa ideia atender a essas experiências, mas perguntou se havia algo que eu pudesse fazer que pudesse ter um efeito mais imediato sobre os medos de Richard, que estavam se tornando cada vez mais persistentes. Ao testemunhar as circunstâncias atuais da vida de Richard, esta era uma prioridade que eu apreciaria muito.

Para atender a essa prioridade, encorajei Richard a me apresentar a esses medos que estavam lhe provocando um momento tão difícil - eu queria que ele caracterizasse esses medos para mim para que eu tivesse alguma ideia do que ele estava enfrentando. Ele ficou surpreso com este pedido, e de repente houve uma faísca de interesse em seus olhos. Logo decidimos que eu poderia ter uma imagem melhor das coisas se ele pintasse seus medos. Eu peguei algum material de arte e Richard foi trabalhar. Olhei por cima dos ombros dele enquanto ele o fazia, e como esses medos começaram a tomar forma, me tirou o fôlego ver com o que Richard estava lutando. Estes eram realmente medos muito assustadores, e observei: (p.3)

MW: Ninguém que tenha medos como estes correndo em torno de suas vidas seria capaz de dormir.

Richard: Bem, eu quase não durmo!

MW: Bem, isso é justo?

Richard: O que?

MW: Voce acha que é justo esses medos tirarem seu sono?

Richard: Não, não é justo. Realmente, não é justo.

MW: Os vizinhos estão conseguindo dormir com esses medos soltos à noite?

Richard: Uh. MW: Os vizinhos estão ...

Richard: O que você acha mãe?

Jane: Talvez você pudesse perguntar a eles?

Richard: Okay, farei isso. Farei isso assim que chegar em casa. Mãe, eu perguntarei primeiro a Sra. Murphy. E depois eu posso ir ver Johnny e descobrir o que está acontecendo lá.

MW: Johnny foi visto cansado ultimamente?

Richard: Ele tem, mãe?

Convidei Richard a dar mais um passo para caracterizar esses medos nomeando-os, e então passamos algum tempo descobrindo o que esses medos estavam tramando para sua vida, e o que isso dizia sobre as intenções desses medos. Não demorou muito para desenvolvermos algum entendimento das táticas específicas empregadas por esses medos de se estabelecerem como uma autoridade na vida de Richard, dos propósitos que moldavam essas táticas, e dos planos que esses medos tinham para seu futuro. À medida que tudo isso se tornava mais claro para Richard, ele ficou bastante indignado e decidiu que ele não estava tão feliz de ir junto com os planos que os medos tinham sonhado para sua vida. Na verdade, isso de repente parecia bastante intolerável para ele. Nós três passamos algum tempo descobrindo por que ele estava tão descontente com esses planos cheios de medo para o seu futuro, e em pouco tempo descobrimos o que era que ele queria para sua vida que não se encaixem com a agenda dos medos. (p.4)

Foi com base nisso que Richard decidiu que alguma ação teria que ser tomada: Richard: Alguma coisa tem que ser feito sobre isso.

MW: Desculpe, o que...

Richard: Alguma coisa tem que ser feita sobre isso. Estes medos precisam de uma boa educação.

MW: Oh, então uma boa educação seria...

Richard: Fixar as coisas, sim. MW: Okay, Ótimo!

Enquanto nossa conversa se desenrolava, compreendi que Richard começaria pela educação de seus medos sobre o que ele queria para sua vida, sobre seus próprios planos para seu futuro. Além disso, ele decidiu que esses medos não deveriam ficar livres para vagar à noite criando estragos em sua vida e em sua conexão com os outros. Para esse fim, ele desenvolveu um programa para reduzir as atividades deles: (p.5)

Richard: Esses medos podem estar perturbando os outros.

MW: Sim, eles podem estar.

Richard: Eles devem estar arruinando o sono das outras pessoas.

MW: Provavelmente.

Richard: Eles não devem ser autorizados a correrem durante à noite por todos os lugares.

MW: Eu acho que você pode estar certo sobre isso.

Richard: Eles devem ser trancados à noite.

MW: Trancados à noite?

Richard: Sim.

MW: Como você poderia fazer isso?

Richard: Eu os colocarei numa caixa e amarro.

MW:Parece um bom plano. Quando fará isso?

Richard: Antes de ir dormir.

MW: E depois? Você vai mantê-los amarrados em uma caixa o tempo todo?

Richard: Não, eu os deixarei livres pela manhã antes de ir para a escola, só para que eles possam apenas brincar

MW: Isso soa como um bom plano

Jane: Com certeza é. (p.6)

Quando nos encontramos novamente três semanas depois, eu soube que, com o apoio de Jane, Richard tinha colocado em ações estes planos para educar seus medos e reduzir suas atividades. Ele trouxe de volta para este encontro os desenhos que tinha feito de seus medos. Desta vez eles estavam trancados em segurança numa caixa de papelão que era amarrada com fortes elásticos. Richard estava se sentindo muito melhor, e como uma consequência disso estava dormindo mais profundamente e tinha retornado para a escola num período de meio turno. Ele estava com aparência mais forte e mais confiante. Ao ouvir sobre as iniciativas e esforços que Richard havia empreendido para educar os medos e reduzir suas atividades, perguntei sobre como os medos tinham percebido isso. Richard informou que não tinha sido fácil para os medos, e que "eles tinham sido bastante irritantes". Ele então demonstrou essa irritabilidade: (p.6)

Richard: Veja, eles se contorcem muito. Eles se contorcem muito. (A caixa claramente sacudindo em suas mãos.)

MW: Sim, posso ver isso. Mas eu posso ver que quando você os segura, eles não se contorcem muito, não é?

Richard: Não, eles não se contorcem muito.

MW: Vamos ver se se contorcem quando eu tenho a posse deles.

Richard: Okay. (Richard passa a caixa para Michael)

MW: Oh. Oh (Michael leva a caixa e os medos começam a se contorcer muito. Richard: Tenha cuidado!

MW: Oh. Oh. Oh (A situação está piorando, e agora os medos sacodem Michael em torno de sua cadeira)

Richard: Olhe para fora!

MW: OH. Oh. Oh. (Michael está sendo girado em torno de sua cadeira pelos medos, e mal é capaz de manter a posse da caixa)

Richard: Olhe para fora! Olhe para fora!

MW: Oh. Oh. Socorro! Socorro! (Michael é jogado no chão, as girações agora aumentaram em amplitude, e ele teme que a caixa consiga ficar livre de sua compressão)

Richard: Eu peguei isso (Richard pula de sua cadeira e agarra a caixa, salva Michael de um destino terrível.)

MW: Ufa! Isso estava próximo. Oh, obrigado, obrigado. (Claramente abalado, Michael bastante instável se puxa de volta para sua cadeira, e tenta se recompor novamente) Jane: Ei, olhe. Olhe, eles estão tentando sair. Richard: (Em pé atrás de sua cadeira, com a caixa em seu assento, olhando muito orgulhoso para si, por conta da intervenção que fez na situação que estava olhando muito sombria.) Sim. Veja aqui está o voador saindo e aqui está o horripilante- rastejando que está saindo também.

MW: (Ainda respirando pesadamente e olhando bastante desgrenhado). Oh menino, é uma sorte você estar aqui. (p.7 e 8)

Os passos que Richard deu para educar seus medos e esvaziar suas atividades funcionou muito bem para ele, e ao longo de um período de semanas ele conseguiu uma vida livre de medos. Por conta desta realização ele foi premiado com Certificado de Domação de Medos e Monstros e lhe foi concedido ser membro da sociedade Fear Busters and Monsters Tamers Society da Austrália e Nova Zelândia . Desde 1980 esta foi uma sociedade ativa com grande número de sócios. Richard decidiu levar este certificado para a escola para mostrar aos companheiros na esperança de identificar outra criança que fosse membro desta mesma sociedade tão secreta...