NARRATIVAS DE VIDAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, uma filosofia de vida inserida em uma abordagem terapêutica pós-estruturalista que não separa o observador do observado.

REFLEXÒES FINAIS

 Meu objetivo com este livro foi ver os filmes biográficos de pessoas notáveis e vincular às narrativas de vida dos personagens filmados com os pressupostos teóricos da Terapia Narrativa. Focalizei em cada uma das personalidades cine biografadas com um aspecto importante que demonstrasse e ligasse suas historias de vida com a Terapia Narrativa. Quis mostrar de uma maneira geral que o angulo em que se quiser focar os principais aspectos de suas vidas, todos foram muito importantes e as histórias com a Terapia Narrativa foram contadas de uma nova maneira.

Nas narrativas feitas nos filmes são mostrados os focos principais, isto é,  como foi mostrado nas suas biografias o panorama de suas ações e o panorama de suas identidades pessoais mostrando suas ações e crenças pessoais. Escolhi filmes porque acho que é uma forma livre de estudar a T. N. e despertar curiosidade.

Este estudo foi uma viagem intelectual através dos preconceitos e vitórias das pessoas filmadas. Tinha um objetivo, partir de algo em que acredito os pressupostos da Terapia Narrativa e com isso ir mostrando que o problema podia estar no corpo físico de S. HAWKING; na aceitação ou não da doença mental (NASH, VAN GOGH) e da solidão (GAUGUIN) como consequência para achar um novo caminho na não aceitação do convencionalismo europeu; fui em frente mostrando o convencionalismo cultural dos diagnósticos médicos no trabalho de NISE DA SILVEIRA; acolhi a luta do preconceito social na questão do gênero (SIMONE DE BEAUVOIR E SARTRE), passei para outro tipo de preconceito e abuso sociocultural da luta contra o racismo de LUTHER KING que transformou sua luta e discursos num campo para defender suas ideias; caminhei com GANDHI na sua luta pela independência de seu país compartilhada por milhares de pessoas para sair da miséria, aplaudi a luta de MANDELA contra a segregação social, onde sua voz foi ouvida mesmo após ter ficado 27 anos na prisão e terminei reverenciando MADRE TERESA DE CALCUTÁ sair de um convento para ficar ao lado dos mais pobres dos pobres por convicções religiosas.

Todos esses são exemplos importantes porque estão presentes também na vida de todos nós, são posições abrangentes que ainda estão em aberto neste nosso mundo que se diz tão moderno mas onde ainda temos que aprender, ontem como hoje, a lidar com esses problemas e achar formas de sobreviver a eles para ficarmos livres e autores da própria vida. Todos eles transformaram suas próprias vidas e de outras pessoas, fizeram dos problemas instrumentos de trabalho, usando novas possibilidades para não ficarem presos à historia saturada. Todos nós temos problemas e o problema é o que fazer com eles, como lidar com eles. Milhares de pessoas devem perceber que fazem isso em suas vidas, mas não posso escrever sobre suas histórias, de modo que só me restava os filmes que já são públicos. Independente de qualquer coisa o universo continua a girar, HAWKING e NASH os dois souberam pinçar neste universo, na Física e na Matemática o melhor para cada um. Vi pessoas comentando ao sair do filme sobre HAWKING: Como foi possível para ele fazer tudo isso tendo essa doença paralisante? Como foi possível para NASH sendo esquizofrênico conquistar o que conquistou? As doenças físicas e mentais estavam lá, mas não os impediu de se posicionarem no trabalho. Acho que foram gênios, principalmente porque souberam fazer isso. Quero sinalizar que à medida que foram sendo comentadas estas narrativas de vida comecei a perceber que para saírem da acomodação dos rótulos estereotipados que comandavam suas vidas foi necessário criar um novo modelo de que somos os grandes especialistas de nossas vidas e não podemos ser guiados o tempo todo por padrões estereotipados. Ninguém sai de uma posição cômoda para algo novo se não se posicionar de forma diferente. É preciso destacar que todas essas pessoas notáveis só tinham como apoio a necessidade de saírem do problema e tiveram a sabedoria de usar seus próprios problemas para se moverem para novas histórias alternativas. Fizeram do problema pessoal o ponto de partida para novas conquistas, saíram para uma nova história usando suas próprias limitações. É claramente mostrado que o aspecto sócio cultural está interligado com os problemas psíquicos. Todos consolidaram uma forma nova de encarar a vida, utilizaram seus próprios interesses, a ciência, a arte, a sobrevivência da mulher, utilizaram o problema do racismo, da segregação e da miséria para mobilizarem as pessoas. • HAWKING e NASH - Podem ter dito, sou deficiente físico ou mental e dai? Sou um ser humano e posso fazer disso um trunfo e não um motivo para queixas. Eles acreditaram e se apoiaram na ciência para saírem de suas limitações.  VAN GOGH - Sofreu por não se adaptar a família e aos preconceitos sociais? Sim, mas usou sua arte como um momento único e apesar de suas limitações, o preconceito de então foi dissolvido por seus momentos extraordinários com a pintura que hoje é aceita e admirada por todos. Com a arte teve momentos em que saiu da sua angústia. • GAUGUIN - Buscou a solidão? Ótimo, foi assim que aprofundou sua pesquisa por uma arte livre de condicionamentos, e enquanto na Europa predominava o impressionismo ele foi atrás de algo mais primitivo e livre. Procurou na arte um novo caminho para sua solidão. • NISE DA SILVEIRA - Foi punida por sua forma de trabalhar, e daí? Pôde fazer seu trabalho de outra maneira e transformou sua punição em um novo modelo para lidar com doenças mentais e comprovar com seu trabalho, alternativas mais dignas na vida dos seus clientes na prática do dia a dia. Mudou o rumo dos tratamentos psiquiátricos.  • SIMONE DE BEAUVOIR - Teve problemas por ser mulher? Arregaçou as mangas e mostrou que tinha os mesmos direitos que qualquer homem, foi difícil, mas foi preciso mostrar isso a partir da sua própria experiência de vida, da filosofia existencialista, que diz: o ser humano é livre para pensar e agir. Provou que podia ser uma mulher com os mesmos direitos de um homem. • LUTHER KING - Sofreu com o racismo? Usou seu próprio sonho de ser livre e igual a qualquer ser humano e compartilhou ideias com adeptos do seu sonho ou pessoas que sofriam do mesmo problema. Transformou o problema de ser negro num direito humano existencial e o sonho passou para um novo patamar. • GANDHI - Quis lutar pela independência do seu país e para o povo sair da miséria? Começa a procurar pessoas para compartilhar essa luta com ele e seus ideais pacíficos. • MANDELA - Quis lutar contra a apartheid, a segregação? Faz ouvir sua voz mesmo tendo estado na prisão por 27 anos, de lá se faz ouvir e usou de sabedoria para conquistar aquilo em que acreditava, seus direitos enquanto ser humano. • MADRE TERESA - Quis ajudar os pobres? Abandona o convento e transforma sua crença religiosa numa missão para ajudar os pobres mais pobres. Os problemas tinham os mesmos elementos que as soluções, apenas todos eles tiveram que procurar novas formas de lidar com eles ao buscar alternativas.  Todos eles lutaram e consolidaram aquilo em que acreditavam, desconstruíram velhos preconceitos e indicaram o caminho para novas posições. Sairam do conhecido e partiram para o desconhecido das novas lutas.

O que eles tinham em comum? Todos eles externalizaram ao mudar a relação com o problema, usando a ciência, a arte, novos métodos de trabalho, acreditando que o homem e a mulher, negros ou brancos, pobres ou ricos tem os mesmos direitos, todos acreditaram nos seus sonhos e crenças e reconstruíram suas vidas e seguiram suas viagens, alguns partindo do agenciamento pessoal para o coletivo, para novas possibilidades. Admiramos nessas pessoas aquilo que achamos quase impossível alguém fazer e esquecemos que é o contrario, eles provam que é possível fazer, que também somos capazes de grandes feitos. Nós pobres mortais comuns também podemos fazer isso. Somos seres humanos iguais e diferentes apenas precisamos fazer do limão uma limonada. Buscar uma saída do problema saturado para poder afastá-lo e abrir novas possibilidades frente às situações problemáticas. Isso faz parte do nosso trabalho enquanto terapeutas narrativos. Fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas, com seus sonhos e crenças. Podemos trabalhar a Terapia Narrativa numa sala de consultório de forma individual, com famílias ou irmos para o mundo no coletivo, a porta está aberta. Assim  tenho a possibilidade de provar que a alegria da vida, a cura, o amor, a verdade estão presentes na vida e assim com sabedoria dançar com esses elementos e depois caminhar da melhor forma possível. Todos os biografados transformaram seus problemas em algo possível de modificar e criaram novas narrativas. Nos problemas quase sempre é visível a ligação dos problemas psicológicos com as crenças sociais predominantes. Qual predomina? O sofrimento emocional de não estar sendo aceita ou o preconceito de não ser igual, agir como os outros?

David Denborough nos mostra como usar a criatividade com as metodologias que criou A Arvore da Vida e Time da Vida usando a base conceitual da terapia narrativa. Michael White no documentário dirigido por sua filha Penny White, produzido pelo Dulwich Centre, numa homenagem póstuma ao pai nos 10 anos pós sua morte nos mostra  Michael White falando de conceitos complexos como externalização e outros com bom humor. Michael White era extremamente criativo.

Escolhi historias de vidas reais para serem descritas e mostradas com minha visão da abordagem de Michael White e David Epston. Achei que assim os conceitos ficariam mais animados com exemplos mostrados nos filmes. Nós, terapeutas narrativos para fazermos nosso trabalho temos que começar realmente acreditando:

* Que não somos o problema – o problema é que é o problema. A relação com o problema é que tem que mudar. É necessário então estabelecer uma nova relação com o problema. Então temos que acreditar em outras possiblidades que não o problema, abrir novos caminhos em nossas crenças e valores e sair do pré-estabelecido por normas socioculturais. * Temos que consolidar uma nova posição e não deixar que o problema fique interferindo em nossas vidas como um todo. Esse é nosso trabalho.

É preciso acreditar nesses postulados e cada um fazer de acordo com sua capacidade. Enfim, só dentro da vida nossa de cada dia podemos nos mover e abrir novas possibilidades para situações problemáticas. São direitos que podemos conquistar no processo da vida.

Foi muito bom fazer esta viagem através do tempo e refletir acompanhada dos recortes de vidas das pessoas notáveis vistas nos filmes e ao mesmo tempo vincular, pontuar e refletir o quanto a T. Narrativa, algo em que acredito, influencia e está presente na minha visão de mundo.

Minha ideia é levar as propostas da T. Narrativa para um público maior e divulgar no Brasil. Com a ajuda de Cheryl White tem sido possível trazer para este lado do mundo excelentes professores vindos do Dulwich Centre na Austrália para aqui trabalharem com a comunidade de terapeutas de Salvador e do Brasil. Com este livro uso duas formas de expressão: a arte da narrativa dos filmes e da T. Narrativa. É uma forma que encontrei para organizar meu pensamento e com os pés mais firmes na T. Narrativa, criar histórias alternativas para abrir novas possibilidades.

As referencias dos filmes e informações técnicas foram retiradas da Internet. A internet está presente em nossas vidas, às vezes nos aproxima do mundo outra nos distancia da vida, mas é de fácil acesso para quem quer ratificar um assunto. As informações não foram retiradas sem uma pesquisa e confirmação, visto que vi todos os filmes.

 As informações sobre a Terapia Narrativa foram retiradas dos livros que li de Michael White, Cheryl White, David Denborough, Shona Russel, Alice Morgan, etc. Os pensamentos escritos também são resultado do que foi assimilado e estudado dentro do que ouvi e refleti sobre o que disseram os professores nos cursos aqui em Salvador, David Epston, David Denborough, David Newman, Jill Freedman, John Winslade, Mark Hayward, etc.  Aprendi muito com todos eles e agradeço seus ensinamentos.