NARRATIVAS DA VIDA

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, uma filosofia de vida inserida em uma abordagem terapêutica pós-estruturalista que não separa o observador do observado.

SIMONE E SARTRE

COMENTÁRIOS SOBRE O FILME DA VIDA DE JEAN PAUL SATRE E SIMONE DE BEAUVOIR COM O APOIO DA TERAPIA NARRATIVA.

SIMONE E SARTRE demonstraramem em suas vidas que o sóciocultural com seus preconceitos era o foco principal do problema que eles viviam. Os dois mudaram totalmente a concepção de uma relação a dois e reescreveram a história de um casal.  Desconstruiram a velha forma, o velho modelo de relacionamento de casais. Reconstruiram suas vidas de uma forma que era totalmente diferente daquilo que era comum na epoca, consolidaram suas posições, com altos e baixos foram firmando suas posições e desenvolveram uma nova forma de relacionamento homem-mulher. Tiveram uma relação aberta com todas as implicações que essa palavra podia significar naquela época, inclusive mostrada no filme e que parte do grande público considerou depravação.

SIMONE de BEAUVOIR provou que a mulher não existia porque se tornou ao longo dos séculos apenas um apêndice do homem, um prolongamento do homem, não tinha vida própria. Ela demonstrou ao longo de sua vida com suas ideias que não era apêncice de ninguém, nem de SARTRE que admirava e amava. SIMONE se revoltou contra esse preconceito com a mulher e fez disso a estandarte de sua vida. SIMONE usou a propria filosofia existencialista que SARTRE pregava: liberdade de pensar e agir, e SARTRE também teve certa coerência com sua filosofia existencialista, dessa forma, os dois foram obrigados a confirmarem na vida pessoal suas ideias filosóficas. Tiveram então um relacionamento livre sem monogamia, em que eram fieis a cada um sendo infiel no relacionamento. Viveram o que pregaram e aceitaram: serem infieis sendo fieis um ao outro no relacionamento que tinham entre si. SIMONE DE BEAUVOIR, como mulher reinvidicou ter os mesmos direitos que um homem podia ter e formulou a grande questão de sua vida, ser mulher, um ser humano semelhante a qualquer outro. Teve um papel preponderante nas ideologias feministas do século XX. Seus estudos foram baseados em teorias políticas, filosóficas, históricas e psicológicas. As frases abaixo resumem bem o panorama de suas ideias e de sua individualidade. • “Por vezes a palavra representa um modo mais hábil de se calar do que o silêncio.”“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir- lhe uma independência concreta.”“O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho.” • “A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo.” • “Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento a única diferença consiste no preço e na duração do contrato.” “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” • O laço que une a mulher a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito, um dado biológico e não um momento da história humana. Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.

É muito interessante ver descrito num filme peculiaridades da propria história do casal. Com isso na narrtaiva de suas vidas fica claro que Simone   faz a reautoria de sua vida enquanto mulher e ser humano e passa a SER A AUTORA DE SUA PRÓPRIA VIDA.

SARTRE E S. DE BEAUVOIR são exemplos de vida em que se mostra através de suas biografias os PANORAMAS DE SUAS AÇÔES e de IDENTIDADE nas quais se moveram no mundo e fizeram uma passagem ou uma RE- AUTORIA ao reescreverem suas vidas.

RE-AUTORIA – Como o próprio nome diz é recriar as condições para a pessoa ser ou voltar a ser a autora de sua propria vida. A prática da reautoria é baseada na suposição de que nenhuma história tem a possibilidade de encapsular a totalidade da experiencia de uma pessoa, pois se sabe que um recorte da historia não representa a experiencia total de vida de qualquer ser humano, assim é possivel recontar de formas as mais diversas uma experiencia para continuar autora da própria vida de um ângulo novo, pois mudar a direção do problema pode ser uma diferença pequena ou grande dependendo do destaque que a pessoa dá ao que ocorre ao longo do tempo se sua vida. Vimos como SIMONE DE BEAUVOIR de acordo com sua biografia no filme e na vida reconta sua vida pessoal passo a passo enquanto mulher, amante e companheira. E assim se coloca fora da vigência de sua época, do contexto social da época vivendo um novo papel como mulher. HONROU SUA PROPRIA IDENTIDADE COMO MULHER O problema dos dois era socio cultural. Os dois sairam da acomodação dos rótulos vigentes na cultura da época, sairam dos rótulos estereotipados e criaram um novo modelo de relacionamento entre casais. Como escritores partem de si mesmo e expandem até alcançarem uma amplitude maior com os outros. No dia Primeiro de Outubro de 1929, Sartre sugeriu um pacto: eles teriam um amor permanente “essencial”. Eles juraram fidelidade um ao outro, mas teriam casos, num relacionamento aberto. E JEAN PAUL SARTRE? Foi obrigado devido as circunstancias do relacionamento com SIMONE DE BEAUVOIR a mudar sua própria concepção de homem, não deve ter sido facil para ele aceitar esta nova situação, mas ele terminou por aceitar este acordo para colocar na sua vida prática as suas proprias ideias filosoficas: liberdade de agir e pensar. Se ela não tivesse sido firme na sua posição, ele teria ficado na posição mais aceita e cômoda do homem daquela epoca, visto que era mais facil. Isso vem provar que em qualquer relação quando um muda o outro tem que mudar para aceitar ou não a situação. Ele também teve que refazer sua propria história e reescrever a história de sua vida. Na luta dos dois, estava visivel o problema dela de ser uma mulher que não aceitava ser um ser de segunda classe, que queria demonstrar que a a mulher faz parte do genero humano com os mesmos direitos que os homens e que para se relacionar com um homem tinha que ser nessas condições. Ela foi acusada de depravada, os olhos do mundo se voltaram para ela porque afinal quem estava rompendo barreiras era ela, buscando uma nova posição como mulher. SARTRE estava na posição mais comoda do homem vivida por séculos e séculos. Para ele o conflito estava entre pensar e agir livremente de acordo com sua filosofia e viver com uma companheira que não aceitava os padrões socioculturais da época, que também queria viver e agir livremente como ele. Qualquer problema não vem sozinho, vem sempre acompanhado de outras situações que não estão sendo focadas, aparentemente estão ausentes, mas tambem estão lá implicitas e fazem parte da relação com o problema. Estava ausente do foco principal da situação, mas implicito no conflito sociocultural em que viviam aquilo que eles também achavam que era uma necessidade humana: valorizar um ao outro, amar um ao outro, respeitar um ao outro. O pricipal foco não vem sozinho, vem sempre acompanhado de outras situações implicitas, que circundam o problema.

No caso de SIMONE o foco que prevaleceu foi a questão do genero, mas estava também implicito no problema que os dois valorizavam ter uma relacionamento amoroso fiel e que isso fosse possivel apesar das circunstancias, dentro do que os dois também queriam: serem iguais, terem os mesmos direitos e terem um relacionamento em que fossem fieis um ao outro. Os dois queriam e amavam um ao outro, queriam o companheiro (a), queriam ser fieis sendo infieis. Eles queriam ter um amor permanente essencial, visto que fizeram esse pacto e esses valores também estavam implicitos em suas vidas, ter um amor permanente e essencial, fieis um ao outro, também queriam viver essa imperiosa necessidade humana, mesmo que para isso tivessem que desafiar as expectativas culturais e sociais então vigentes em seus respectivos ambientes burgueses.

AUSENTE, MAS IMPLICITO – é um conceito baseado na ideia de que há uma dualidade em quase todas as descrições das experiencias de problemas e tais descrições são relacioais Uma em que se vive o problema, a situação focal e outra que também se valoriza mas as duas entram em conflito. A dualidade se apresentava entre o pensar, viver e agir livremente e fazer isso com uma companheira que não aceitava o fato de ter direiros diferentes do homem. Uma descrição particular do problema saturado de defender suas ideias sobre as mulheres, no caso de BEAUVOIR e SARTRE pode ser cnsiderado o lado mais visivel, a bandeira ideológica da experiencia dualistica, mas estava implicita sentida e também valorizada, o desejo de ter um novo tipo de relacionamento onde os dois tivessem direitos iguais. Estava implicito que eles valorizavam um ao outro, os dois queriam um ao outro, queriam o companheiro (a), queriam um amor permanente “essencial”, mas não queriam se relacionar predominantemente só com esse aspecto, queriam também sair dos acordos rotulados de como eram vistos a mulher e homem na sociedade da epoca. As duas experiencias estavam presentes, uma visivel, o foco do problema e a outra também vivida, mas implicita e também valorizada. Nessa situação dos dois estava visivel que eles queriam criar um novo tipo de relacionamento entre um homem e uma melher, lutarem por seus direitos, mas tabém estava implicito o desejo de quererem isso enfrentando o desafio dos dois se aceitarem sem predominar os rótulos pois tambem va99 lorizaram aceitar um ao outro apesar das barreiras, e queriam um amor permanente “essencial”. Mas como fazer isso sem conflitos? SIMONE DE BEAUVOIR visivelmente não aceitava se submeter a situação humilhante do papel da mulher que a sociedade definia, mas estava lá visivel também a crença de que como ser humano tinha direito  a um relacionamento essencial, mas para a mulher daquela epoca era quase impossivel sair dessa situação valorizando apenas suas crenças e qualidades pessoais para se movimentar. SARTRE também vivenciou essa dualidade, mas de forma diferente, sua filosofia lhe dizia que esse era um direito dos dois, mas vivenciar isso também foi dificil, pois também para ele não era a norma. O conflito entre a conformidade opressiva do cultural e autenticidade que o casal vivenciou e confrontou abertamente em suas vidas pessoais foi o problema dominante de suas vidas, eles enfrentaram a situação e começaram um novo modelo de relacionamento com direitos iguais, por exemplo, onde o mais óbvio foi terem quantos relacionamentos quisessem fora, isto é serem fieis sendo infiéis. Devem ter sofrido, mas mantiveram seus próprios ideiais. A luta só terminou no cemitério onde os dois finalmente ficaram juntos no mesmo túmulo.

QUE TIPO DE REFLEXÕES AINDA HOJE PODEM SER FEITAS APÓS AS CONQUISTAS INICIADAS POR ELES?