NARRATIVAS DA VIDA

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, uma filosofia de vida inserida em uma abordagem terapêutica pós-estruturalista que não separa o observador do observado.

GAUGUIN - VIAGEM AO TAITI

Escolhi este filme para mostrar a vida de outro artista plástico que viveu no mesmo período, mas com características de vida artísticas diferentes de VAN GOGH, pois viu a vida de outro ângulo. Existiu uma certa amizade entre PAUL GAUGUIN e VINCENT VAN GOGH. Apesar de não concordarem em muitos pontos de vista, conversavam sempre que se encontravam sobre obras e tendências do mundo artístico.

• Data de lançamento do filme: 23 de agosto de 2018 • Duração do filme: (1h:41min) • Direção: Edouard Deluc •

Elenco: Vincent Cassel, Tuheï Adams, Malik Zidi, etc. •

Gênero: Drama, Biografia.

• Nacionalidade: França •

Aspectos da Vida l de Paul Gauguin (Wikipedia)

 O artista PAUL GAUGUIN decide, por conta própria, se exilar no Taiti (1891). Lá, é onde ele espera reencontrar sua pintura livre, selvagem, longe dos códigos morais, políticos e estéticos da Europa civilizada. Mas, no local, acaba se afundando na selva, enfrentando a solidão, pobreza e a doença. E se uniu com Tehura, que se tornou sua esposa e o tema de muitas de suas pinturas.

Sua pintura livre no Taiti demonstra aquilo que ele realmente queria, isto é, se livrar dos condicionamentos europeus. Parece que sonhava para sua vida o que demonstrava na sua pintura no Taiti.

Pesquisei aspectos da vida de GAUGUIN para demonstrar sua inquietude perante a vida. Ele não foi diagnosticado com nenhuma doença, apenas era inquieto e tinha curiosidade pela vida. O condicionamento a uma vida certinha, enquadrada no sócio cultural da época o sufocavam. A sua solidão no Taiti foi resultado desse não enquadramento. Sair de Paris, capital do mundo naquela época para um lugar em que não tinha sequer com quem trocar ideias foi um preço a pagar e ele foi levado para outro extremo, o oposto do que tinha tido até então; a pobreza e a doença também foram outras consequências do seu retiro e ele terminou por se fixar na sua arte que lá no Taiti, também ninguém entendia.

E agora? O que fazer? Cada vez mais ele se fixou na arte como forma de amparar sua solidão, sua pobreza e o afastamento de Tehura com quem tinha se casado no Taiti e que tinha se tornado um tema de suas pinturas. O filme vai mostrando sua caminhada, passo a passo, enfrentando a selva, a solidão, a pobreza e a doença, e cada vez mais fixado em sua pintura.

Sua arte o salvou e ele volta. Morou durante algum tempo em Pont-Aven, na Bretanha, onde sua arte amadureceu. Posteriormente, morou no sul da França, onde conviveu com Vincent Van Gogh, mas terminaream por brigar. Numa viagem à Martinica, em 1887, Gauguin passou a renegar o impressionismo e a empreender o “retorno ao princípio”, ou seja, à arte primitivista. Tinha ideia de voltar ao Taiti, porém não dispunha de recursos financeiros para voltar. Então, com o auxílio de amigos, também artistas, organizou um grande leilão de suas obras. Colocou, à venda, cerca de 40 peças]. A maioriaia foi comprada pelos próprios amigos de Gauguin, como por exemplo Theo van Van Gogh, marchand irmão de Vincent van Gogh, que comerciava para a Casa Goupil (importante estabelecimento que trabalhava com obras de arte). Conseguiu arrecadar 7.350 francos franceses, e em meados de 1891, depois de se despedir de sua primeira esposa em Copenhagen e regressou ao Taiti, onde pintou cerca de uma centena de quadros sobre tipos indígenas, como “Vahiné no te tiare” (“A moça com a flor”) e “Mulheres 61 de Taiti”, além de executar inúmeras esculturas e escrever um livro, Noa.

Quando voltou a Paris, realizou uma exposição individual na galeriaa de Durand-Ruel, mas fixou-se definitivamente na ilha Dominique. Nessa fase, criou algumas de suas obras mais importantes como a tela: “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”, (1897) obra que está no Museu de Belas Artes de Boston, uma tela enorme de 4 metros, pintada em apenas um mês, que sintetiza toda a sua pintura, realizada antes de uma frustrada tentativa de suicidio, utilizando arsênico. Da direita para esquerda, é possível notar uma evolução da vida humana. Começando com uma criança no canto, um adulto ao meio em contato com o conhecimento (simbolizado pela árvore) e, no outro extremo, uma velha anciã.

Em setembro de 1901, transferiu-se para a ilha Hiva Oa, uma das Ilhas Marquesas, aonde veio a falecer de sífilis. Encontra-se sepultado no cemitério de Atuona. Característica da obra de GAUGUIN desenvolveu as técnicas do “sintetismo” e “cloisonnisme” (alveolismo), estilos de representação simbólica da natureza onde são utilizadas formas simplificadas e grandes campos de cores vivas chapadas, que ele fechava com uma linha negra, e que mostravam uma forte influência das gravuras japonesas. A sua pintura é caracterizada por: Natureza alegórica, decorativa e sugestiva; formas dimensionais, estilizadas, sintéticas e estáticas. (Referencias: Paul Gauguin – Arte na Internet. Pintores Famosos). COMENTARIOS com apoio da T. NARRATIVA: GAUGUIN não teve como VAN GOGH um diagnóstico de loucura, aliás, é o oposto de VAN GOGH em tudo. Também levou a extremos sua vida, mas neste caso viveu na solidão porque não queria se enquadrar na vida social e cultural da epoca. Fez o inverso de VAN GOGH, enquanto este sofria por não saber como lidar com a rejeição social e a doença, GAUGUIN sonhava com o paraiso primitivo de uma sociedade não contaminada por condicionamentos sociais e descobre que mesmo nas sociedades mais primitivas existem normas e leis que devem ser respeitadas. O pintor viaja para o Taiti em busca de novos temas para sua pintura e para se libertar dos condicionamentos da Europa. GAUGUIN queria fugir do condicionamento social e cultural europeu, saiu da ideia comum, desconstruiu a ideia de que na solidão é impossivel fazer algo. Tentou Reconstruir sua vida e mostrou que mesmo na solidão era possivel fazer algo significativo, no caso a pintura e cada vez mais foi se tornando livre dos condicionamentos classicos, acreditou na sua arte e assim consolidou pós-morte sua posição pra a posteridade.

O que quero evidenciar é que ambos para viverem fora de suas angustias buscaram (sem saber) externalizar com a pintura, nelas procuraram momentos extraordinarios que lhes davam paz e prazer, com isso nesses momentos viveram fora de 63 suas angústias. Sofreram as consequencias de suas escolhas, um querendo ser aceito nessa sociedade e o outro rejeitando os condicionamentos sociais e ambos, com ou sem loucura viveram esses momentos dificeis usando a arte para enfrentarem a situação.

VAN GOGH e GAUGUIN também são exemplos muito bons do que acontece quando as pessoas ficam presas às histórias repetitivas e saturadas. Eles não vivenciaram histórias alternativas, ou melhor, nos fizeram expectadores de suas histórias alternativas através do seu imenso potencial criativo. VAN GOGH e GAUGUIN tiveram seus momentos extraordinarios, mas não perceberam assim como nossos clientes também não percebem que mesmo vivendo a loucura, a solidão e a angustia, etc. tem momentos em que estão fora do problema saturado.

As pessoas, às vezes não pecebem que esses momentos extraórdinarios podem ser aberturas para novas histórias alternativas. Mas apesar de não perceberem isso felizmente VAN GOGH e GAUGUIN nos deixaram a herança de seus momentos extraordinarios. VAN GOGH E GAUGUIN externalizaram ao buscarem com a arte uma nova relação com suas angustias e sofrimentos. Com o apoio da pintura tiveram momentos extraordinarios de prazer, compensaram o sofrimento.com suas pinturas ao buscarem uma nova relação consigo mesmos e com o mundo;

Bem ou mal, enfrentaram a situação, ao externalizaram e procuraram com suas pinturas, novas alternativas e nessas alternativas GAUGUIN E VAN GOGH extraíram do sofrimento, algumas alegrias, acreditaram nos seus projetos de vida com a arte e só assim não se entregaram totalmente aos momentos dificeis que passaram com a solidão e a angústia. Náo é isso que procuramos demostrar com a Terapia Narrativa? Queremos desenvolver com as pessoas aberturas no 64 processo terapeutico, se possivel nomeando o problema e dentro da história pessoal praticar a externalização, procurando tirar do foco o problema, buscando na propria história da pessoa externalizar, isto é ter uma nova relação com o problema, pesquisar os momentos únicos em que ficaram fora do problema, que muitas vezes a pessoa nem percebe que teve na sua vida.

Assim as vidas de VAN GOGH e GAUGUIN não foram reconstruidas por eles, que apesar de conseguiram viverem esses momentos extraordinarios com suas pinturas, não souberam sair do foco dos sintomas, não souberam buscar historias alternativas.

E o que são histórias alternativas? Durante a terapia são procurados na vida das pessoas os momentos únicos em que o problema não dominou a situação e que através do tempo podem conduzir às histórias alternativas quando a pessoa saiu e dominou a situação problematica e pode assim reconstruir sua história de vida. As histórias alternativas brotam dos momentos únicos que contrastam com as histórias saturadas dominantes que a pessoa trouxe para a terapia. As histórias alternativas afastam- se da descrição da inflluencia do problema, priorizam os momentos únicos e com isso fazem brotar novas histórias e dessa forma podem aparecer novas assimilações para lidar com a situação. No processo terapeutico depois dos momentos extraordinarios podem surgir histórias alternativas que proporcionam recursos que foram sendo lembrados ao longo do processo terapeutico e que podem expandir o repertório de novos recursos na vida das pessoas.

Os dois, VAN GOGH e GAUGUIN não venceram suas angustias, ficaram presos a elas, mas perceberam que quando pintavam a angustia, o sofrimento e os problemas eram esquecidos ou pelo menos eles não ficavam fixados no foco do problema, deixavam o sofrimento em segundo plano. Confiaram na sua arte, procuraram alternativas, tiveram seus momentos extraordinarios, mas infelizmente mesmo com a pintura recusaram ou não souberam criar histórias alternativas e continuaram a girar em torno dos seus problemas.

GAUGUIN fez de sua solidão instrumento para seu trabalho e sobreviveu apesar dos altos e baixos de sua vida. Ele rejeitou os condicionamentos sociais, mas também usou seu problema como um instrumento para trabalhos magnificos.

Nem VAN GOGH, nem GAUGUIN foram reconhecidos em vida, mas sobreviveram às suas doenças doando ao mundo suas obras e com isso marcando presença. Hoje, pós-morte têem o reconhecimento do mundo e assim nós criamos com sua arte as histórias alternativas que eles não fizeram. Hoje o público reconhece suas pinturas que nasceram com tanto sofrimento e espontaneamente as colocou definitivamente no mundo, pois atualmente, discutimos e transmitimos os efeitos de suas vidas e suas obras. Hoje eles vivem eternamente conosco através de suas pinturas. O mundo os aceitou e está fazendo da rejeiçao inicial uma aceitação plena.

QUE TIPO DE REFLEXÕES NOS VEM SOBRE A HISTÓRIA DA VIDA DE GUAGUIN?