NARRATIVAS DE VIDAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, uma filosofia de vida inserida em uma abordagem terapêutica pós-estruturalista que não separa o observador do observado.

COM AMOR, VAN GOGH

Investigando Van Gogh (retirado da internet) Escrito por Francisco Russo

Poucos filmes representam uma declaração de amor tão intensa a um artista quanto Com Amor, Van Gogh. A começar pela forma como foi conceituado: estreando a técnica da animação a partir de suas pinturas a óleo, seguindo o mesmo estilo do próprio homenageado. Ou seja, mais do que contar sua história era necessário apresentá-la sob um ponto de vista tão particular, que fez com que o pintor se tornasse cultuado após sua morte. O resultado, visualmente falando, é deslumbrante.Inspirado por mais de 400 pinturas que Van Gogh fez ao longo de oito anos, a animação revisita os locais e personagens recorrentes de seu portfolio para construir uma investigação que, além de contar a história do pintor, esmiúça o mistério acerca de sua morte. Teria sido mesmo suicídio ou alguém seria o responsável? A resposta é apresentada a partir da viagem de Armand Roulin à cidade francesa de Arles, um ano após o falecimento de Van Gogh, com o objetivo de entregar à sua família uma carta perdida do pintor, endereçada ao irmão, Theo. Cada vez mais obcecado, Armand Roulin, filho do carteiro que entregava as cartas de Theo inicia então uma investigação pessoal em torno dos conhecidos de Van Gogh para decifrar o que realmente aconteceu. Tal narrativa, no fim das contas, serve mais para ambientar como era a vida do pintor, e suas aflições, do que propriamente para desvendar qualquer mistério - cuja insistência torna-se maçante, em determinado momento.

O grande trunfo do longa-metragem é realmente a técnica de animação empregada, que consegue reproduzir a textura e a beleza das pinceladas de Van Gogh, no sentido de apresentar cenários e objetos cujos traços soam contínuos e permanentemente vivos. Além disto, são várias as referências as suas pinturas, do icônico quadro Noite Estrelada, que serviu de inspiração para o cartaz de Meia Noite Em Paris, aos marcantes corvos, tão presentes na fase final de sua vida. Para quem conhece o acervo deixado pelo pintor, reconhecer na telona tais obras torna-se um deleite, não só visual, mas também pela forma como são inseridas na narrativa.

Tamanho esforço visual foi fruto de um trabalho de anos da equipe liderada pelos diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman, que precisaram adaptar a técnica da pintura a óleo para que pudesse ser aproveitada em uma animação. Ao todo, 125 pintores trabalharam em cerca de 70 mil frames, sendo que os atores que dão voz aos personagens também precisaram 50 servir de modelo para os mesmos. Tal iniciativa fica explícita quando a animação focaliza melhor os rostos dos personagens, sendo possível reconhecer os traços de Saoirse Ronan e de Jerome Flynn, o Brown da série Game of Thrones. O mesmo acontece com o restante do elenco, com tal esforço sendo ressaltado pouco antes dos créditos finais, em comparações entre os quadros e os atores caracterizados. Diante de tamanho esforço em retratar a obra de Van Gogh, a história apresentada fica em segundo plano.

A trajetória do pintor, que apenas vendeu uma tela em vida e sobrevivia graças à ajuda financeira do irmão, serve de pano de fundo para a tal investigação acerca de sua morte, que soa mais como desculpa para apresentar os vários personagens que povoaram suas obras. No final das descrições, o porquê de Van Gogh ter morrido torna- se menor do que a arte por ele produzida.

De imenso impacto visual, COM AMOR, VAN GOGH é um filme que brilha pela proposta estética implementada, seja pela beleza das imagens ou pelo capricho na técnica de animação empregada. Por mais que sua trama não seja suficiente para sustentar o interesse por 95 minutos, ainda assim é uma experiência cinematográfica que merece ser conferida, especialmente por aqueles que apreciam, e conhecem a obra do homenageado. Filme visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017. 

Eis alguns quadros tirados do filme:Esses dois filmes COM AMOR, VAN GOGH (2017) e VINCENT & THEO (1990) foram um estímulo para considerar o tema da esquizofrenia, o preconceito e também o sofrimento das pessoas dominadas por essas doenças.

COMO ILUSTRAR ASPECTOS DA VIDA DE VAN GOGH ATRAVÉS DA TERAPIA NARRATIVA? Van Gogh ficou preso a sua doença e ao preconceito sociocultural, mas mesmo sem saber externalizou o problema, isto é, fez uma ligação nova na vida com sua arte, viveu os momentos extraordinários e consolidou para o mundo uma nova forma de sair da doença. Neste caso vou tentar comentar a vida de Van Gogh mostrada no filme focando o conceito de externalização da Terapia Narrativa. Parece que a única forma que Van Gogh encontrou para se relacionar deforma diferente com sua angustia foi pintando seus quadros, isto é, externalizou com suas obras, e mudava pelo menos enquanto pintava sua relação com a angústia, à doença. Saia da loucura nos momentos em que pintava que eram seus momentos extraordinários.

Mais afinal, o que é externalizar? É sair do problema geralmente focado fixamente no aspecto da doença e se relacionar de uma forma diferente com o problema, perceber e visualizar que aí também pode estar uma influencia forte do sócio cultural, do preconceito sobre a loucura influenciando o problema. Van Gogh ficou preso à angústia da esquizofrenia, ficou preso ao diagnostico e com isso também ficou preso à rejeição sociocultural. »» VAN GOGH acolheu sua doença, ou pelo menos não soube lidar com ela, ao ficar fixamente preso ao diagnostico e a rejeição cultural, e talvez devido a isso não tenha percebido que ao pintar encontrava uma maneira diferente de se relacionar com o problema. Pintando ele focalizou em algo diferente - suas pinturas - que assim lhe proporcionaram seus momentos extraordinários. »» Os momentos extraordinários são aqueles momentos únicos em que entrou na pintura e esqueceu sua angústia. Ao ficar preso a sua angústia se esqueceu dos momentos em que esteve fora dela. »»

O que são momentos extraordinários?

São momentos únicos sobre os quais as pessoas falam e que são sinalizados e sentidos como exceções dentro da história saturada do problema. »» Pode ser qualquer momento que não combine com a história saturada do problema. São momentos em que a condução da vida da pessoa não está controlada ou dominada de forma imediata pelo problema, momentos em que o problema tem pouca ou nenhuma influencia sobre a pessoa. É uma exceção dentro da história saturada dominante que proporciona uma abertura para aquilo que pode ser considerado um território alternativo na vida da pessoa. (Michael White, 1989) »»

Até que ponto Van Gogh ficou preso ao diagnóstico e ao sócio cultural de que era um doente, um esquizofrênico? Parece que totalmente, uma vez que se sentia deslocado, não aceito pela sociedade da época, sofre por não poder se adaptar a essas normas sociais.

VAN GOGH sofria por não conseguir se ajustar ao que a família queria ou pela situação de ter sido rechaçado pelo preconceito com que era visto o diagnóstico de esquizofrenia? Cortou a orelha e deu de presente para uma prostituta, Gaby. Crianças o perseguiam até a hospedaria, ou ao asilo. Desde a infância teve problemas. Ele mesmo diz: “tentei muito me fixar no que a família queria, mas não consegui”. Esforçouse para ser o que queriam que ele fosse. Como desconstruir as ideias e crenças que são dadas como certas ou como verdades de entendimentos no lugar comum? ELE ACEITOU SER O PROBLEMA.

Ideias e crenças que sustentam o problema estabelecem uma relação eu - problema. Apesar de tudo, Van Gogh mesmo sem saber estabeleceu uma relação gratificante consigo mesmo ao externalizar seu problema pintando, teve momentos extraordinários com isso. Os momentos extraordinários de sua vida foram aqueles em que pintava e foi resumido na frase: NÃO PODEMOS FALAR AOS OUTROS A NÃO SER ATRAVÉS DE NOSSAS PINTURAS. (VAN GOGH) Com sua arte ele se relacionou de forma diferente com o problema, e após sua morte finalmente foi aceito e reconhecido no mundo. Na T. Narrativa com a externalização se introduz uma clara separação entre o problema e a pessoa, assim na terapia se abre espaço para convidar as pessoas a identificarem e a desenvolverem uma nova forma de relação com o problema. A pessoa é a protagonista principal do filme da sua vida e lhe dá uma nova identidade com uma nova visão de sua experiência. Sem perceber, assim fez Van Gogh, sua arte foi à forma que achou para se relacionar de forma diferente com o problema e com a vida. Conseguiu se relacionar com sua arte.

CAPITULO 4.1

 COM AMOR – VAN GOGH - narra à história de Van Gogh através de sua pintura.

Informações tiradas da internet sobre: Com Amor, Van Gogh. Diretor: Dorota Kobiela e Hugh Welchman Elenco: Douglas Booth, Saoirse Ronan, Aidan Turner País de origem: Reino Unido, Polônia. Ano de produção: 2017 – 94 min. Bom Com Amor, Van Gogh. Investigando Van Gogh (retirado da internet)

Texto Escrito por Francisco Russo

Poucos filmes representam uma declaração de amor tão intensa a um artista quanto Com Amor, Van Gogh. A começar pela forma como foi conceituado: estreando a técnica da animação a partir de suas pinturas a óleo, seguindo o mesmo estilo do próprio homenageado. Ou seja, mais do que contar sua história era necessário apresentá-la sob um ponto de vista tão particular, que fez com que o pintor se tornasse cultuado após sua morte. O resultado, visualmente falando, é deslumbrante. Inspirado por mais de 400 pinturas que Van Gogh fez ao longo de oito anos, a animação revisita os locais e personagens recorrentes de seu portfolio para construir uma investigação que, além de contar a história do pintor, esmiúça o mistério acerca de sua morte. Teria sido mesmo suicídio ou alguém seria o responsável? A resposta é apresentada a partir da viagem de Armand Roulin à cidade francesa de Arles, um ano após o falecimento de Van Gogh, com o objetivo de entregar à sua família uma carta perdida do pintor, endereçada ao irmão, Theo. Cada vez mais obcecado, Armand Roulin, filho do carteiro que entregava as cartas de Theo inicia então uma investigação pessoal em torno dos conhecidos de Van Gogh para decifrar o que realmente aconteceu. Tal narrativa, no fim das contas, serve mais para ambientar como era a vida do pintor, e suas aflições, do que propriamente para desvendar qualquer mistério - cuja insistência torna-se maçante, em determinado momento. O grande trunfo do longa-metragem é realmente a técnica de animação empregada, que consegue reproduzir a textura e a beleza das pinceladas de Van Gogh, no sentido de apresentar cenários e objetos cujos traços soam contínuos e permanentemente vivos. Além disto, são várias as referências as suas pinturas, do icônico quadro Noite Estrelada, que serviu de inspiração para o cartaz de Meia Noite Em Paris, aos marcantes corvos, tão presentes na fase final de sua vida. Para quem conhece o acervo deixado pelo pintor, reconhecer na telona tais obras torna-se um deleite, não só visual, mas também pela forma como são inseridas na narrativa. Tamanho esforço visual foi fruto de um trabalho de anos da equipe liderada pelos diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman, que precisaram adaptar a técnica da pintura a óleo para que pudesse ser aproveitada em uma animação. Ao todo, 125 pintores trabalharam em cerca de 70 mil frames, sendo que os atores que dão voz aos personagens também precisaram 50 servir de modelo para os mesmos. Tal iniciativa fica explícita quando a animação focaliza melhor os rostos dos personagens, sendo possível reconhecer os traços de Saoirse Ronan e de Jerome Flynn, o Brown da série Game of Thrones. O mesmo acontece com o restante do elenco, com tal esforço sendo ressaltado pouco antes dos créditos finais, em comparações entre os quadros e os atores caracterizados. Diante de tamanho esforço em retratar a obra de Van Gogh, a história apresentada fica em segundo plano. A trajetória do pintor, que apenas vendeu uma tela em vida e sobrevivia graças à ajuda financeira do irmão, serve de pano de fundo para a tal investigação acerca de sua morte, que soa mais como desculpa para apresentar os vários personagens que povoaram suas obras.

No final das descrições, o porquê de Van Gogh ter morrido torna- se menor do que a arte por ele produzida.

De imenso impacto visual, COM AMOR, VAN GOGH é um filme que brilha pela proposta estética implementada, seja pela beleza das imagens ou pelo capricho na técnica de animação empregada. Por mais que sua trama não seja suficiente para sustentar o interesse por minutos, ainda assim é uma experiência cinematográfica que merece ser conferida, especialmente por aqueles que apreciam, e conhecem a obra do homenageado. Filme visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017. Eis alguns quadros tirados do filme. Esses dois filmes COM AMOR, VAN GOGH (2017) e VINCENT & THEO (1990) foram um estímulo para considerar o tema da esquizofrenia, o preconceito e também o sofrimento das pessoas dominadas por essas doenças.

COMO ILUSTRAR ASPECTOS DA VIDA DE VAN GOGH ATRAVÉS DA TERAPIA NARRATIVA? Van Gogh ficou preso a sua doença e ao preconceito sociocultural, mas mesmo sem saber externalizou o problema, isto é, fez uma ligação nova na vida com sua arte, viveu os momentos extraordinários e consolidou para o mundo uma nova forma de sair da doença. Neste caso vou tentar comentar a vida de Van Gogh mostrada no filme focando o conceito de externalização da Terapia Narrativa. Parece que a única forma que Van Gogh encontrou para se relacionar deforma diferente com sua angustia foi pintando seus quadros, isto é, externalizou com suas obras, e mudava pelo menos enquanto pintava sua relação com a angústia, à doença. Saia da loucura nos momentos em que pintava que eram seus momentos extraordinários.

Mais afinal, o que é externalizar? É sair do problema geralmente focado fixamente no aspecto da doença e se relacionar de uma forma diferente com o problema, perceber e visualizar que aí também pode estar uma influencia forte do sócio cultural, do preconceito sobre a loucura influenciando o problema. Van Gogh ficou preso à angústia da esquizofrenia, ficou preso ao diagnostico e com isso também ficou preso à rejeição sociocultural. »»

VAN GOGH acolheu sua doença, ou pelo menos não soube lidar com ela, ao ficar fixamente preso ao diagnostico e a rejeição cultural, e talvez devido a isso não tenha percebido que ao pintar encontrava uma maneira diferente de se relacionar com o problema. Pintando ele focalizou em algo diferente - suas pinturas - que assim lhe proporcionaram seus momentos extraordinários. »»

Os momentos extraordinários são aqueles momentos únicos em que entrou na pintura e esqueceu sua angústia. Ao ficar preso a sua angústia se esqueceu dos momentos em que esteve fora dela. »»

O que são momentos extraordinários? São momentos únicos sobre os quais as pessoas falam e que são sinalizados e sentidos como exceções dentro da história saturada do problema. »» Pode ser qualquer momento que não combine com a história saturada do problema. São momentos em que a condução da vida da pessoa não está controlada ou dominada de forma imediata pelo problema, momentos em que o problema tem pouca ou nenhuma influencia sobre a pessoa. É uma exceção dentro da história saturada dominante que proporciona uma abertura para aquilo que pode ser considerado um território alternativo na vida da pessoa. (Michael White, 1989) »»

Até que ponto Van Gogh ficou preso ao diagnóstico e ao sócio cultural de que era um doente, um esquizofrênico? Parece que totalmente, uma vez que se sentia deslocado, não aceito pela sociedade da época, sofre por não poder se adaptar a essas normas sociais. VAN GOGH sofria por não conseguir se ajustar ao que a família queria ou pela situação de ter sido rechaçado pelo preconceito com que era visto o diagnóstico de esquizofrenia? Cortou a orelha e deu de presente para uma prostituta, Gaby. Crianças o perseguiam até a hospedaria, ou ao asilo. Desde a infância teve problemas. Ele mesmo diz: “tentei muito me fixar no que a família queria, mas não consegui”. Esforçouse para ser o que queriam que ele fosse. Como desconstruir as ideias e crenças que são dadas como certas ou como verdades de entendimentos no lugar comum? ELE ACEITOU SER O PROBLEMA. Ideias e crenças que sustentam o problema estabelecem uma relação eu - problema. Apesar de tudo, Van Gogh mesmo sem saber estabeleceu uma relação gratificante consigo mesmo ao externalizar seu problema pintando, teve momentos extraordinários com isso. Os momentos extraordinários de sua vida foram aqueles em que pintava e foi resumido na frase: NÃO PODEMOS FALAR AOS OUTROS A NÃO SER ATRAVÉS DE NOSSAS PINTURAS. (VAN GOGH)

Com sua arte ele se relacionou de forma diferente com o problema, e após sua morte finalmente foi aceito e reconhecido no mundo. Na T. Narrativa com a externalização se introduz uma clara separação entre o problema e a pessoa, assim na terapia se abre espaço para convidar as pessoas a identificarem e a desenvolverem uma nova forma de relação com o problema. A pessoa é a protagonista principal do filme da sua vida e lhe dá uma nova identidade com uma nova visão de sua experiência. Sem perceber, assim fez Van Gogh, sua arte foi à forma que achou para se relacionar de forma diferente com o problema e com a vida. Conseguiu se relacionar com sua arte, mas não conseguiu se relacionar com a sociedade que o rejeitou por ser diagnosticado como louco. O estigma, a angústia o perseguiu e ele terminou por se suicidar. Nos momentos extraordinários em que esteve totalmente concentrado nas suas pinturas fez obras maravilhosas que doou ao mundo que o rejeitou. “Este foi Vincent van Gogh, então um artista pouco conhecido; agora um dos artistas mais famosos do mundo.” Hoje devido a sua arte se faz o inverso, hoje é aceito e amado no mundo por sua arte e suas obras. Apesar de sua doença foi aceito e reconhecido como um dos maiores artistas da atualidade.

Assim sendo, com sua pintura é feita uma devolução à cultura que o rejeitou e dessa forma foi feito também uma devolução do problema à cultura, agora com ele aceito.

NA HISTÓRIA DA VIDA DE VAN GOGH QUAIS AS REFLEXÕES QUE NOS VEM À MENTE?