NARRATIVAS de VIDAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, que não separa o observador do observado.

2. EXTERNALIZAÇÃO

2. PERGUNTA – CONVERSAÇÕES DE EXTERNALIZAÇÃO SÃO COLOCADAS EM QUASE TODOS OS SEUS LIVROS E ATENDIMENTOS, E PARECE SER O PONTO DE PARTIDA PARA TODA SUA PRÁTICA. QUAL A HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO DESSA PRÁTICA TERAPÊUTICA?

RESPOSTA

Já faz mais de 20 anos que escrevi meu primeiro texto sobre Conversações de Externalização (White, 1984)

1990 - CONVERSAÇÕES DE EXTERNALIZACÃO - (Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications.)

Para a desconstrução das histórias que as pessoas vivem, propus a objetivação (ter ação objetiva) do problema para os quais as pessoas buscaram terapia (White,1984,1986,1989, White & Epston, 1989, p.126}.

Esta objetivação engaja pessoas nas conversações de externalizacão em relação àquilo que acham problemático, preferivelmente às conversas de internalizações. Estas conversas de externalizacão geram o que pode ser chamado uma contra linguagem, ou como David Epston recentemente propôs, uma “anti-linguagem”. (Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications. (p.126)

Estas conversações de externalização “exorcizam o doméstico” naquilo que encoraja as pessoas a identificarem as histórias particulares e conhecimentos culturais nas quais vivem; aquelas histórias e conhecimentos que guiam suas vidas e que falam para elas de suas identidades. Estas conversações de externalizações ajudam as pessoas a se desembaraçarem, através do tempo, da constituição do seu self e de seus relacionamentos. Conversas de externalizacão são iniciadas para encorajar pessoas a fornecerem um relato necessário dos efeitos dos problemas em suas vidas. Isto pode incluir os efeitos nos seus estados emocionais, relacionamentos familiares e de companheiros nas esferas sociais e de trabalho, etc. e com uma enfase especial em como isso tem afetado sua “visão” de si mesmos e de seus relacionamentos. Assim, as pessoas são convidadas a mapearem a influência que esta visão ou percepção tem em suas vidas, incluindo suas interações com outros. Isto é muitas vezes seguido por alguma investigação de como a pessoa foi recrutada para estas visões. (Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications, p.126)

Quando a pessoa se torna engajada nestas conversas de externalizacão, suas histórias privadas cessam de falar para eles de suas identidades e da verdade de seus relacionamentos – estas histórias privadas não são mais transfixações de suas vidas. As pessoas vivenciam uma separação e alienação em relação a estas histórias. No espaço estabelecido por esta separação, as pessoas ficam livres para explorarem alternativas e conhecimentos preferidos sobre quem devem ser; histórias alternativas e conhecimentos preferidos nos quais devem firmar suas vidas. (Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications, p.126)

EM 1990 - EXTERNALIZAÇÃO DO PROBLEMA (MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON, Narrative Means to Therapeutics Ends; Norton Professional Books, 1990, Dulwich Centre, Adelaide, Austrália do Sul. (p. 38/39/40).

“Externalizacão” é um enfoque para terapia que encoraja pessoas a objetivarem e às vezes, personificar os problemas que sentem como opressivos. Neste processo, o problema se torna uma entidade separada e desta maneira, externo a pessoa ou relacionamento que foi descrito como o problema. Aqueles problemas que são considerados serem inerentes, assim também como aquelas qualidades relativamente fixas que são atribuídas as pessoas e aos relacionamentos, são tornadas menos fixas e menos limitantes.

Eu (M.W.) comecei minhas primeiras tentativas sistemáticas para encorajar pessoas a externalizarem seus problemas dez anos atrás. Estas tentativas tiveram lugar predominantemente dentro de contextos de trabalho com famílias que se apresentaram para terapia com problemas identificados nas crianças. Aspectos deste trabalho foram apresentados antes. (White, 1984, 1985, 1986)

A externalização dos problemas das crianças claramente teve um grande apelo para estas famílias. Embora o problema seja usualmente definido como interno à criança, todos os membros da família foram afetados e muitas vezes se sentiram completamente dominados, desanimados e vencidos. De várias maneiras, eles aguentavam o andamento do problema e suas tentativas fracassadas para os solucionar como uma reflexão sobre eles mesmos, um ao outro e/ou seus relacionamentos.

A sobrevivência contínua do problema e a falha de medidas corretivas serviram para confirmar, para os membros das famílias, a presença de diversas qualidades ou atributos negativos pessoais e de relacionamento. Assim, quando os membros dessas famílias detalhavam os problemas para os quais buscavam terapia, não era de todo incomum para eles apresentarem o que eu chamo de "descrição saturada de problemas" da vida familiar. Em outros lugares, ao fundamentar sobre a história ou analogia do texto, coloquei esta "descrição saturada de problemas" como "história dominante da vida familiar" (White, 1988; e também capítulo I -MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON, Narrative Means to Therapeutics Ends/ Norton Professional Books, 1990, Dulwich Centre, Adelaide, Austrália do Sul. p. 38/39.

Ao ajudar estes familiares a separarem eles mesmos e seus relacionamentos do problema, a externalização abriu possibilidades para eles descreverem a si mesmos, uns e outros, e seus relacionamentos de uma nova forma, de uma perspectiva não saturada do problema; isso habilitou o desenvolvimentos de histórias alternativas da vida familiar, uma que foi mais atrativa para os familiares. Desta nova perspectiva, as pessoas foram capazes de localizar “fatos” sobre suas vidas e relacionamentos que contradiziam, que não podiam mesmo que vagamente serem percebidas nos problemas saturados do relato da vida familiar: “fatos” que contradiziam esses relatos do problema saturado; fatos que proporcionavam o núcleo para a geração de novas histórias. E, no processo o problema da criança era invariavelmente resolvido.

As respostas recentes muito positivas para estas tentativas de encorajar famílias para externalizar seus problemas me conduziram a ampliar a prática para uma ampla gama de apresentação de problemas. Durante todas as minhas explorações subsequentes desta abordagem, descobri que a externalização do problema era útil para as pessoas nas suas lutas com problemas. Consequentemente, eu concluo que, entre outras coisas, esta prática: 1. Diminui conflitos improdutivos entre pessoas, incluindo aquelas disputas sobre quem é responsável pelo problema; 2. Mina a sensação de fracasso desenvolvido por muitas pessoas em resposta a existência persistente do problema a despeito das tentativas para resolvê-los. 3. Pavimenta o caminho para as pessoas cooperarem entre si, para se unirem na luta contra o problema, e escaparem da influência dos problemas em suas vidas e relacionamentos. 4. Abre novas possibilidades para as pessoas tomarem medidas para recuperarem suas vidas e relacionamentos da influência do problema. 5. Liberta as pessoas para terem uma abordagem mais leve, mais eficaz, e menos estressada para problemas “mortalmente graves”; e 6. Apresenta opções para diálogos, em vez de monólogos, sobre o problema Dentro do contexto das práticas associadas com a externalização de problemas, nem a pessoa nem o relacionamento entre as pessoas é o problema. Em vez disso, o problema torna-se o problema (grifo meu) e, em seguida, a relação das pessoas com o problema torna-se o problema. (MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON, Narrative Means to Therapeutics Ends/; Norton Professional Books, 1990, Dulwich Centre, Adelaide, Austrália do Sul. (p. 38/39/40).

2007 -CONVERSAÇÕES DE EXTERNALIZACÃO (WHITE, Michael - Maps of Narrative Pratice, W.W.Norton & Company, New York, 2007. p.9). Muitas pessoas que buscam terapia acreditam que os problemas de suas vidas são um reflexo de sua própria identidade, ou da identidade dos outros, ou um reflexo da identidade dos seus relacionamentos. Este tipo de compreensão modela seus esforços na tentativa de resolver seus problemas, e infelizmente estes esforços têm, invariavelmente, o efeito de acentuar os problemas. Por sua vez, isto leva as pessoas a acreditarem ainda mais firmemente que os problemas de sua vida são um reflexo de certas “verdades” sobre sua natureza e caráter, sobre a natureza e o caráter dos outros ou sobre a natureza e caráter de seus relacionamentos. Em suma, as pessoas acabam por acreditar que seus problemas são internos ao seu self ou o selves dos outros – que eles ou outros são de fato o problema. E esta crença apenas as envolve ainda mais nos problemas que estão tentando resolver.

Conversações de externalização podem propiciar um antidoto a esses entendimentos internos ao objetivar o problema. São empregadas práticas de objetivação do problema contra práticas culturais de objetivação das pessoas. Isto torna possível experienciar uma identidade que está separada do problema: o problema se torna o problema, não a pessoa (grifo meu). No contexto de conversações de externalizações o problema cessa de representar a “verdade” sobre a identidade das pessoas e opções para uma realização bem sucedida se torna visível e acessível... (WHITE, Michael - Maps of Narrative Pratice, W.W.Norton & Company, New York, 2007. p.9).

...Conversas de externalizacão nas quais o problema se torna o problema e não a pessoa, (grifo meu) podem ser consideradas contrapartidas àquelas que objetificam identidades. Conversações de externalização empregam práticas de objetivação do problema em contrapartida à objetivação de pessoas. (pag. 26).

Quando o problema se torna uma identidade que é separada da pessoa e quando as pessoas não estão atadas às “verdades” restritivas em relação à sua identidade e “certezas” negativas sobre sua vida, novas opções de ação para lidar com as dificuldades de suas vidas tornam-se disponíveis. Essa separação entre a identidade da pessoa e a identidade do problema não exime as pessoas da responsabilidade de enfrentarem os problemas que encontram. Em vez disso, permite ainda mais que assumam essa responsabilidade. Se a pessoa é o problema, há muito pouco a ser feito além de tomar atitudes autodestrutivas. Mas, se a relação da pessoa com o problema se torna mais claramente definida, como acontece nas conversações de externalizações, uma gama de possibilidades se torna disponível para revisar essa relação. Conversações de externalização também possibilitam que as pessoas desembaracem algumas das conclusões negativas sobre sua identidade a que geralmente chegaram sob a influência do problema. (p. 26). (WHITE, Michael - Maps of Narrative Pratice, W.W.Norton & Company, New York, 2007. p.9). 

POSTURA DO TERAPEUTA (p. 27)

QUAIS AS FORMAS DE INVESTIGAÇÃO NUMA CONVERSAÇÃO DE EXTERNALIZACÃO?

 CONVERSAÇÃO DE EXTERNALIZAÇÃO EM TERAPIA PODE SER COMPARADA A UM JORNALISMO INVESTIGATIVO... p. 27)

. ...EM RESPOSTA ÀS PERGUNTAS INVESTIGATIVAS FEITAS PELO TERAPEUTA, AS PESSOAS EM TERAPIA TAMBÉM ASSUMEM UMA POSIÇÃO SEMELHANTE À DE UM REPÓRTER INVESTIGATIVO. (p.28)

(MICHAEL WHITE Maps of Narrative Practice; – 2007, W.W. Norton & Company, NY; p. 28)

Dessa forma, contribuem para a construção da exposição do caráter do problema, suas operações e atividades, e os propósitos que informam estas operações e atividades. Nesse ponto, as pessoas não são encorajadas a focar esforços na resolução do problema, reformar o problema ou se engajar em uma luta direta com o problema ... (p.28)

No engajamento “leve” característico das fases iniciais das conversações de externalização, a pessoa tem a oportunidade de transcender o “campo de atuação" do problema, isto é, abordar o problema em um território que não seja seu território familiar. Ao fazer isso, as pessoas normalmente, experimentam uma redução do sentimento de vulnerabilidade aos seus problemas e começam a se sentir menos estressadas pelas circunstâncias relativas ao problema. (p.29)

Esta postura na segunda-fase e as ações que se seguem a partir delas, são moldadas de modo significativo pelas metáforas que são empregadas para caracterizar a influência desses problemas. Por exemplo, se a pessoa caracteriza essa influencia como opressiva, a postura assumida será de oposição, e a pessoa agirá para “liberar” sua vida do problema. (MICHAEL WHITE Maps of Narrative Practice; – 2007, W.W. Norton & Company, NY; p. 28)

(Falaremos das metáforas no próximo dia)