NARRATIVAS de VIDAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, que não separa o observador do observado.

1. ALGUMAS PESSOAS CRITICAM AS METÁFORAS USADAS NA TN, DIZEM QUE PROPICIAM O DESENVOLVIMENTO DE CONCEPÇÕES DUALÍSTICAS. COMO USAR METÁFORAS NAS CONVERSAS DE EXTERNALIZACÃO?

METÁFORAS (MICHAEL WHITE Maps of Narrative Practice; – 2007, W.W. Norton & Company, NY; p. 31)

A questão da metáfora é altamente significante. Todas as metáforas que são empregadas no desenvolvimento de conversas de externalizações tomei  emprestado de certos discursos particulares que evocam entendimentos de vida e de identidade. Esses discursos influenciam as ações que as pessoas praticam para resolver seus problemas e modelam sua vida de modo geral. Em resposta a uma percepção de que as práticas de externalização de forma rotineira encorajam as pessoas a se engajarem numa disputa ou batalha com seus problemas para derrotá-los ou vencê-los, recentemente revisei todos os artigos que eu havia escrito ao longo dos últimos 20 e tantos anos. Nessa revisão descobri que apenas em um desses artigos havia apresentado metáforas de batalha e disputa. Isto foi no primeiro texto que publiquei sobre conversas de externalização e no qual foram apresentadas essas metáforas de “disputa” e “batalha”... Ao me incumbir dessa revisão, listei uma serie de metáforas que as pessoas usaram para definir as ações que haviam praticado ao revisar suas relações com os problemas de suas vidas e também listei a fonte aparente dessas metáforas. Esta lista inclui:

Abandonar o problema (do conceito de agenciamento pessoal)

• Eclipsar o problema (de concepções astronômicas da vida)

• Desencantar o problema (de concepções mágicas da vida)

• Entrar em greve contra o problema (da ideia de ação civil)

• Desaclimatar-se do problema (do conceito de clima)

• Separar-se do problema (dos conceitos de separação e individuação)

• Desafiar as exigências do problema (da ideia de resistência)

• Retirar poder do problema (da ideia de atribuição de poder)

• Divergir da influência do problema (da ideia de protesto)

• Educar o problema (do conceito ensino)

• Escapar do problema ou libertar sua vida do problema (da ideia de libertação)

• Recobrar ou reclamar o território de sua vida em relação ao problema (de concepções geográficas de vida)

• Minar o problema (de concepções geológicas de vida)

 • Reduzir a influência do problema (do conceito de agenciamento pessoal)

• Recusar ou declinar convites para cooperar com o problema (do conceito de sociedade civil)

• Deixar a espera do problema (da ideia de jornada)

• Encaixar-se em atos de reforma contra o problema (do conceito de justiça) • Sair da sombra projetada pelo problema (da ideia de luz)

• Refutar as reivindicações do problema sobre identidade (do conceito de objetividade)

• Reduzir o foco de propagação do problema na sua vida (das concepções fisiológicas de vida)

• Recobrar a posse de sua vida do problema (de entendimentos comerciais de vida)

• Tirar sua vida das mãos do problema (do teatro de fantoches)

• Demitir-se do problema (do conceito de emprego)

• Salvaguardar sua vida do problema (do mundo marítimo)

• Virar o jogo do problema (do mundo dos esportes)

• Roubar sua vida do problema (da ideia de roubo)

• Domar o problema (do conceito de adestramento) • Arrear o problema (do mundo equino)

A diversidade dessas metáforas deve-se muito ao fato de que a maioria delas foi criada por pessoas que procuraram terapia. No entanto, tendo dito isto, é também verdade que, sistematicamente desempenho um papel significativo na seleção das metáforas que são compreensivelmente mais abrangentes nas conversações terapêuticas. Minha experiência mostra que quando a pessoa caracteriza as ações que buscam exercer ou tiveram, ao revisar sua relação com o problema de suas vidas, só muito raramente utilizam uma única metáfora. Raramente é possível levar em consideração todas as metáforas que as pessoas trazem no contexto das conversações terapêuticas, assim algumas são inevitavelmente favorecidas, outras não. (p. 33). O assunto principal deste capítulo foi o uso de conversas de externalização para focalizar nos problemas para os quais as pessoas buscam terapia. Entretanto, conversas de externalizacão também podem ser usadas de maneira mais ampla para revisar e redesenvolver o que muitas vezes é definido como “forças” ou “recursos” das pessoas. (MICHAEL WHITE Maps of Narrative Practice; – 2007, W.W. Norton & Company, NY;p.44

 

2.COMO LIGAR EXTERNALIZACÃO E RESPONSABILIDADE?  

Conversas de Externalizacão e Responsabilidade em 2011

Eu (MW) acho que é possível desenvolver conversas de externalização que aumentem um senso de responsabilidade, ou desenvolvam um senso de responsabilidade em vez de diminui-la. E eu acho que o ponto importante é que não é a externalizacão em si que capacita isso, é o que acontece em seguida. Em uma das minhas apresentações eu me refiro a uma conversa com um homem jovem que estava com muitos problemas, os quais estavam fortemente vinculados aos seus atos de violência. Ele era violento com seus irmãos mais jovens, ele estava agredindo sua mãe, tentou agredir seu pai e estava com problemas na escola por violência. Quase todo mundo estava no limite do bom senso sobre esta situação, então o único membro da família que iria acompanhá-lo para falar comigo era sua mãe. (p.118) ... ...Minha compreensão é que responsabilidade em si é um conceito, não é apenas uma palavra, é um conceito. Agora, este jovem homem sabe a palavra, mas é só isso. Para ele o significado da palavra de qualquer maneira, não foi desenvolvido. Minha compreensão é que, sem o desenvolvimento dessa palavra como um conceito, ele não terá uma base para tomar o que poderia ser considerado uma ação responsável. Para homens que foram encaminhados a mim por cometerem abuso, eles sabem a palavra respeito, mas é apenas uma palavra – não é um conceito sobre vida ou identidade. MICHAEL WHITE, NARRATIVE PRACTICE, Continuing the Conversations, Edited by David Denbourough, W.W.Norton & Company, New York – London, 2011 (p. 118)

Acho que uma das coisas sobre estas conversações de externalização é que tornam acessível possibilidades para o desenvolvimento destes conceitos. Decido que pode ser de ajuda entrevistar o cliente sobre os efeitos desta violência sobre sua própria vida. E então, quero que ele dê nome a isso. Que nome ele poderia dar a isso? Ele chamou “a dor” – machuca outros, então ele o chama - de “a dor” e eu faço com que ele caracterize “a dor” um pouco mais. Estou interessado nos efeitos de “a dor” e quando eu pergunto sobre isto pela primeira vez, ele vincula “a dor” a dor de ser separado da família. Este é um feito – isto não é apenas alguma coisa que aconteceu – presentemente ele está trazendo alguns desses eventos de sua vida para dentro de uma corrente de associações. Para ele ligar agora “a dor” para certas consequências na sua própria vida é uma realização, e nós persistimos nessa conversação por algum tempo... MICHAEL WHITE, NARRATIVE PRACTICE, Continuing the Conversations, Edited by David Denbourough, W.W.Norton & Company, New York – London, 2011 (p.120)

Eu acho que através das conversações de externalizacão as pessoas trazem suas ações para dentro do relacionamento com consequências. Elas então refletem sobre suas experiências disso, e na resposta, surgem com conclusões, ou dão voz a certas aprendizagens sobre a vida que são abstraídas da exata situação. A razão pela qual estou dando ênfase ao conceito de desenvolvimento é que eu acho que o desenvolvimento destes conceitos faz possível para as pessoas fazerem o que chamamos “ter responsabilidade”. Colocando isso simplesmente, os passos são:

(1) Externalizar o problema;

(2) Examinar as consequências;

(3) Refletir sobre as consequências e então perguntar sobre o “por que” daquelas reflexões;

(4) Propor conclusões sobre sua própria vida, ou sobre o que quer, ou sobre o que dá valor, ou o quais as intenções para sua vida.

(5) E em seguida trazer essas palavras para desenvolvimentos adicionais até que se torna um conceito separado da situação concreta.

 Nesta entrevista particular, o rapaz diz que entre outras coisas, a dor está “emprestando” seu pertencimento. Sei que seu “pertencimento” está agora dividido a partir de circunstancias concretas tornando-se uma ideia abstrata ou um conceito sobre a vida. Espero que este breve relato mostre como conversações de externalizacão abrem possibilidades para as pessoas terem responsabilidades sobre suas vidas. MICHAEL WHITE - NARRATIVE PRACTICE - Continuing the Conversations W.W.W. Norton & Company, Inc; Professional Books, New York; 2011(p. 121-122)