NARRATIVAS de VIDAS

Sou  Psicologa  CRP-03/01376  e  uso a abordagem da Narrativa como instrumento de  trabalho. A Terapia Narrativa é uma visão de mundo, que não separa o observador do observado.

PESQUISA: PERGUNTAS SOBRE A TERAPIA NARRATIVA COM RESPOSTAS ENCONTRADAS NOS LIVROS DE MICHAEL WHITE

Nestes tempos de retraimento social decidi fazer as perguntas mais frequentes que tenho escutado sobre a Terapia Narrativa e fazê-las na forma de pesquisa, fazendo perguntas e pesquisando as respostas nos próprios livros de MICHAEL WHITE (MW), usando suas ideias originais. Assim, usando suas palavras "exorcizando o domestico"(o conhecido) eu exorcizei o isolamento revisando e divulgando para nós terapeutas (iniciantes ou não) os pontos principais de sua abordagem. Fui lendo os principais livros que tenho dele e ao lê-los fui fazendo perguntas a mim mesma e literalmente copiando as respostas nos seus próprios livros publicados pelo Dulwich Centre com a permissão de CHERYL WHITE E DAVID DENBOROUGH. As respostas, estão em itálico com as referências de onde foram tiradas entre parênteses (nome do livro, ano da edição e página). As 20 perguntas são minhas, esclarecem minhas dúvidas e as que ouvi de algumas pessoas e que foram diretamente respondidas nos livros por ele escritos sem o acréscimo sequer de uma virgula. Vou distribuir as perguntas por semana, toda segunda feira. Foi um exercício estimulante que agora compartilho com vocês. Algumas perguntas já foram colocadas pelo próprio Michael White e David Epston no livro: Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications,

Para começar uso as perguntas que algumas pessoas fizeram aos próprios Michael White e David Epston e que estão colocadas na introdução do livro mencionado acima (p. 8/9)

“Como posso descrever sua abordagem? Poderia ser apropriada você considerar ser breve, focalizada na solução ou terapia narrativa?” • A tradição de pensamento na qual você situa seu trabalho é claramente não fundamentalista. Mas como pode ser descrita num sentido mais positivo? Por exemplo, isso reflete uma tradição cibernética de segunda ordem ou reflete uma tradição construtivista?

De todas essas teorias a qual você se refere, qual foi a mais significante no desenvolvimento do seu trabalho? Poderia ser uma teoria literária, teoria crítica, teoria social ou alguma coisa mais?

• Quais são os contextos que você considera mais relevantes para o seu trabalho? Voce privilegia macro-contextos e enfatiza assuntos de organização social ou você privilegia micro-contextos e enfatiza noções da pessoa e sua experiência?

• Quais disciplinas têm sido mais relevantes para o desenvolvimento de seu trabalho? Ou você pede emprestado da antropologia, da sociologia ou filosofia?

     RESPOSTAS DE MICHAEL WHITE E DAVID EPSTON(p.8; 9):

“Revisando estas e muitas outras questões e, também, nossas tentativas de dar uma resposta adequada a elas, assim como proporcionar confiança de que nosso trabalho desafie qualquer tentativa de relativizar totalizações simples disso. Confiança, porque fazer com êxito qualquer totalização do nosso trabalho pode correr o risco de nos prender e limitar, assim como aos nossos leitores.

Nós temos sido firmes em nossa recusa de encaixar nosso trabalho de qualquer modo. Nós não nos identificamos com qualquer “escola” de terapia de família, e somos fortemente contra a ideia de nossa contribuição ser designada como uma escola. Acreditamos que semelhante nomeação somente pode diminuir nossa liberdade para gerar explorações de várias ideias e práticas, e que igualmente seria mais difícil para outros reconhecerem suas próprias e únicas contribuições para o desenvolvimento neste trabalho, o qual consideramos ser um “livro aberto”.

Há outra razão para resistir a esta denominação. Com relação as ideias e práticas, nós não acreditamos que estamos em qualquer lugar num tempo determinado e raramente num lugar particular por muito tempo. Ao fazer esta observação, não estamos sugerindo que os desenvolvimentos no nosso trabalho são claramente descontínuos – eles não são. Nem estamos sugerindo que nossos valores e nossos compromissos são instáveis – eles não são. E nós definitivamente não estamos discutindo por formas de ecletismo – as quais evitamos. Entretanto, estamos chamando atenção para o fato de que um dos aspectos associados com este trabalho que é de importância central para nós é o espírito de aventura. Nós visamos preservar este espírito, e sabemos que se realizarmos este nosso trabalho continuaremos a evoluir em maneiras que estão enriquecendo nossas vidas, e as vidas daquelas pessoas que procuram nossa ajuda.

Qual será a direção desta evolução? Poderia ser tentador fazer uma declaração sobre isso. Mas isso poderia ser muito difícil de viver. E além disso, nossa sensação é que a maioria das “descobertas” que estimularam uma parte significante no desenvolvimento de nossas práticas, como descritas nesta coleção, foram feitas após o fato (em resposta aos momentos únicos de nosso trabalho com famílias), com considerações teóricas nos auxiliando para explorar e prolongar os limites destas práticas. Nós reconhecemos o fato de que é sempre muito mais fácil ser “sábio” numa compreensão tardia do que numa previsão. Estes comentários representam nossa maneira de introduzir leitores para as muitas e variadas ideias e práticas descritas nesta coleção particular. Espero que vocês se juntem a nós nesta aventura.

                              Michael White & David Epston

Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications,p.8/9.

1. Pergunta – É INTERESSANTE OBSERVAR A IDÉIA DOS AUTORES (MW e DE) SOBRE A METÁFORA RITOS DE PASSAGEM. VAMOS LER O QUE ESCREVERAM SOBRE O ASSUNTO RITOS DE PASSAGEM NUMA TERAPIA.

Nós acreditamos que o ritual referido por van Gennep (1960) como um “ritual de passagem” tem muito a oferecer como uma metáfora para o processo de terapia. Van Gennep afirmou que o rito de passagem é um fenômeno universal para facilitar transições, na vida social, de uma posição para outra e/ou identidade para outra. Ele propôs um modelo processual desse rito consistindo em etapas de separação, liminaridade e reincorporação. (Experience, Contradiction, Narrative and Imagination; pag.12)

RITOS DE PASSAGEM E TERAPIA - 

Descobrimos que este rito da metáfora da passagem fornece um mapa útil para orientar terapeutas no processo de terapia, e para ajudar pessoas que buscam terapia no trânsito de status problemáticos para status não problemáticos. (Epston, 1985, 1987).

Nossa interpretação desta metáfora estrutura uma terapia que encoraja pessoas a negociarem a passagem do principiante para o veterano, do cliente para o consultor. Em vez de instituir uma dependência de “conhecimentos especializados” esta terapia capacita as pessoas a chegarem a um ponto onde elas possam recorrer a determinadas alternativas e conhecimentos especiais que ressuscitaram e/ou geraram durante a terapia.

Em terapia, a etapa de separação pode ser evocada através de uma serie de intervenções, incluindo aquelas que encorajam as pessoas a discernirem seus problemas e a se engajarem em discursos de externalizacão em relação aos seus problemas (White, 1989). Estas pessoas se deslocam de algo familiar e certo, isso movimenta as pessoas de certas noções conhecidas e tidas como verdadeiras sobre problemas e discursos dominantes de internalizações que guiam suas vidas. Isto inicia a experiência de liminaridade.

É neste espaço liminar* que novas possibilidades emergem e que podem ser exploradas, e que novos conhecimentos alternativos podem ser ressuscitados e/ou geradas. É neste espaço liminar que os “mundos” das pessoas são subjetivados. Nós acreditamos que terapeutas podem avaliar melhor a extensão de suas participações no espaço liminar pelo grau nos quais eles perdem a noção de tempo e são incapazes de estimar a extensão da sessão, e pelo grau no qual eles experimentam um senso de comunhão” com a pessoa que procura terapia...

...A etapa final de reincorporação traz a terapia para sua conclusão. É através da reincorporação que conhecimentos alternativos que foram ressuscitados e/ou gerados se tornam autênticos. É através da reincorporação que novas possibilidades podem ser realizadas. (pag,14)...

...Em contraste com as praticas informadas pelo término, como a metáfora da perda, a metáfora da reincorporação pode representar a etapa final da terapia que converge em torno de uma reintegração da pessoa com outras pessoas em um mundo social familiar, e que estimularia o recrutamento de outros na celebração e reconhecimento da chegada da pessoa a um destino ou status preferido na vida.

Nós nos referimos a estes terapeutas que são formados por esta prática como o “terapeutas da inclusão”.  Experience, Contradiction, Narrative and Imagination: Selected Papers of MICHAEL WHITE & DAVID EPSTON - 1989-1991; Dulwich Centre Publications, p.15).

*Liminar no Dicionário do Aurélio – é aquilo que constitui um limiar ou passagem/.